quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Seu olhar melhora o meu

Encontravam-se naquele momento em que as palavras perdem força e se apagam, e no silêncio os olhos tentam conversar. Mas, por vezes, essa comunicação falha.
- Que foi?
- Seus olhos. Eles não mudam de cor quando os contemplo.
- Eles simplesmente não mudam de cor.
- Mudam sim. E é por isso que gosto de olhar longamente em seus olhos. Quero me lembrar da cor deles ao ir embora.
Ele sorriu meio encabulado, soltou um "você é doida!", mas a encorajou a continuar.
- Você me encantou desde o primeiro momento em que conversamos. Você me olhou nos olhos tão profundamente, que me senti desarmado, nu, como se pudesse ler meus pensamentos e saber todos os meus segredos.
- Isso te encantou? Eu ficaria totalmente desconcertada...
- Sim, e ainda fico desconcertado. Mas, também sinto uma sensação boa... Ninguém nunca me olhou assim, e apesar de estranho, eu sinto confiança, paz! Eu me apaixonei pelo seu olhar, e então te conheci. E não cogito me afastar dos seus olhos, nem do seu coração.
Dessa vez, ela ficou desconcertada. Lembrou-se de um poema do Arnaldo Antunes, sorriu. O poema materializava-se em sua vida!
- "Seu olhar melhora o meu."

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Quantos cubos de gelo?

Eles se conheceram, se estudaram, jogaram metáforas na mesa, e acasos os juntaram. Ela pensou em uma frase de "A insustentável leveza do ser": "...para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante, como passarinhos sobre os ombros de São Francisco de Assis." Ela acreditou que estava amando. E esse amor foi infinito, enquanto durou 2 meses!
Então, ela se jogou no sofá, acompanhada de consecutivos copos de uísque para curar a decepção, para que o álcool colasse os cacos do coração. E lembrou de uma frase de Gabito Nunes, frase que repetia várias vezes... "Quantos cubos de gelo, você deve pôr no uísque para se convencer de que não era amor?"

Beijo roubado


Eles brincavam. Ele a convidou para sair, almoço+cinema. A taquicardia dela aceitou o convite. Ele a abraçou, pegou sua mão, tudo como em um namorico dos anos 40. Mas, ela foi afoita, atrevida, e após o filme, resolveu quebrar o gelo da timidez.
Ele: Não comemos sobremesa, você quer?
Ela: Não.
Ele: Tem certeza?
Ela: Tenho. Não, não tenho. Quero um doce que desejo há um tempão, mas ou você gosta muito de rodeios ou é muito pamonha para perceber.
O rosto dele era um ponto de interrogação, um frio o trespassava a coluna.
Ela: Cadê seu espírito aventureiro? Por que ainda não me roubou um beijo?
Ele balbuciou algo, antes dos lábios quentes se encontrarem de surpresa. Um beijo doce e desajeitado, como costumam ser os primeiros beijos.
Ele: Uau!
Ela: Bom, né?! Beijo roubado é bom, você deveria experimentar mais vezes!

domingo, 1 de abril de 2012

Quando você não se reconhece no espelho

De repente, você se vê mergulhada em ceticismo. Suas opiniões, sua forma de ver as pessoas, relacionamentos, o mundo...tudo tão seco, concreto, até mesmo triste! Então, percebe que mudou muito. Percebe que não é mais a mesma pessoa de algum tempo atrás. "Há quanto tempo você é essa pessoa diferente?" Uma voz dentro da cabeça pergunta isso incessantemente. E uma parte do que você já foi, deseja que a voz fosse a de um grilo falante, aquele do Pinóquio, tentando te acordar ou resgatar. Você pára, pensa, e tenta olhar o mundo com um pouco de romantismo ou de forma lúdica, mas parece insensatez. Você começa a se perguntar como endureceu tanto. Em que ponto da sua vida, a realidade se mostrou tão feia, tão seca? Dói! Dói perceber que você parou de acreditar nas pessoas, no ser humano. Dói perceber que só te resta a fé... Procurar ter fé na humanidade! Dói saber que ao menor vacilo, essa fé pode esvanecer... dói imaginar o tipo de pessoa que você viria a ser então. Dói perceber que a vida se tornará uma batalha interna, na qual você tentará ver o melhor nas pessoas, combatendo seu ceticismo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Relógio quebrado

Quebrar o tempo, quebrar relógios... tudo o que eu poderia querer! Brecar a fugacidade dos segundos só pra ter, por perto por mais tempo, as vidas que fazem parte da minha vida! Mais tempo... mais tempo pra conversar, ouvir suas risadas, assustar com seus espirros, dizer o quanto o admiro. Eu quero quebrar relógios, parar o correr das horas, porque essas despedidas impostas pela brutalidade do tempo quebraram meu coração. E cada caquinho remonta um momento, uma saudade grande!
"Não tenho medo, está chegando a hora de fazer a viagem!" Eu não acreditei, porque as pessoas da minha vida deveriam ser eternas. Sim, eu sou ingênua desse jeito, viu?! Também não sou valente, nem brilhante como o senhor, e por isso, peço desculpas pelas lágrimas incessantes, quando merece belas homenagens. Mas, eu sou péssima em despedidas, sua ausência dói. Vai em paz! Por aqui, como o tempo continua a passar... Até um dia!
Fica com Deus, coração!


Para Hermano Francisco dos Santos, in memoriam.
Meu bisavô e uma das pessoas mais brilhantes e admiráveis que conheci.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Despedir dá febre

"Despedir dá febre", já dizia Guimarães Rosa. E dá mesmo, vem aquele calor de dentro do peito, que sobe para o rosto, formando lágrimas quentes. Despedir dói! Essa febre queima a garganta, arde a alma, ferve o sangue, faz latejar os sentidos. Despedir dói! Não há antipirético que solucione a hipertermia, não há analgésico que faça a dor parar... Só as lágrimas podem confortar, somente as boas recordações podem anunciar a calmaria. Apenas o tempo pode diminuir a dor da saudade e provocar um sorriso nostálgico na evocação de uma memória.

- Nos separamos agora, para um dia nos reencontrarmos! Enquanto isso, procurarei seu sorriso nas estrelas, pois tenho a certeza de que você estará se divertindo por lá.


Dedicado a Hilda Leite Ribeiro, in memoriam.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Concordando em discordar

"Não é só pelo simples fato de ser do contra". Não, na verdade, a cada divergência de opiniões, os olhos dele brilhavam de entusiasmo na quase vã tentativa de a convencer da sua certeza. E ela adorava aquelas estrelas reluzentes que convidavam a viver...
"Sabe, continuarei discordando de você! É tão fácil viver assim... Ser do contra ao seu lado é ser feliz."